Malato revela que partiu o braço ao ser empurrado de umas escadas simplesmente por ser gay

Apresentador viveu um verdadeiro inferno por causa da sua sexualidade.

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"Tive uma infância extraordinária", recorda José Carlos Malato. "Quando era miúdo vivia muito bem apesar de não ter amigos, de não ter crianças naquela casa, era uma estalagem, a Estalagem Oeiras, portanto vivi sempre muito protegido. O meu pai não estava, estava na guerra, na altura, em Moçambique. Dormia com a minha mãe e ela chorava muitas noites e eu dizia, espero que não me levem a mal, ‘Ó mãe tens medo que os pretinhos matem o pai?’… Portanto, vivia já, apesar de ter tido uma infância extraordinária, rodeado de mulheres bonitas e era um miúdo muito protegido e muito feliz. Estava muito ligado às pessoas mais adultas. Depois começou a escola", começa por dizer o apresentador da RTP.

"Fui para a escola antes do 25 abril, e aos 6 anos, por via da minha mãe, tornei-me Testemunha de Jeová, e começou a vida um bocadinho complicada, por causa da religião, que não me deixava fazer tudo", recorda, perante o olhar comovido de Tânia, cuja sogra é tia de Malato.

"Comecei a lidar deste muito novo com o sentimento de culpa e valores que não eram propriamente para a minha idade, como a morte, o pecado, uma não violência, mas sobretudo a ideia de que nós não fazemos parte deste mundo, e por isso havia sempre um choque grande".

Inferno na escola

"As coisas começaram a descambar quando entrei para o ciclo preparatório. Era um miúdo muito sensível, que não gostava de desporto, que preferia a companhia das raparigas, que tinha alguns tiques efeminizados. Passei a ser excluído, a ser discriminado e não estava habituado", lamenta. "Comecei a olhar para mim e o que é que eu tinha de diferente."

"Comecei a ser agredido verbalmente, como maricas, paneleiro, que eram coisas que eu nem sabia o que eram, mas tive de aprender, perceber. Comecei a passar uma vida muito difícil, tinha 10 anos. Também tinha uma religião que dizia para dar o outro lado", esclarece. "Eram coisas terríveis", revela.

"Depois começou a violência física, que era muito forte. Era um bocadinho o bombo da festa. Apanhava sempre. Foi uma altura muito difícil em termos de violência física… numa desses vezes atiraram-me das escadas abaixo e parti um braço. Adorava a escola, estudar, de ser bom aluno, mas tinha tanto medo de ir para a escola que chegava a vomitar antes de chegar à escola, com medo, por saber que aquilo ia acontecer. Era uma violência, uma espécie de violação."

"Sempre fui eu"

"Os meus pais não sabiam. Era outra altura da vida. Não tinha vontade, há 40 anos, de dizer aos meus pais que, olhem, eles dizem que eu sou maricas e por isso batem-me, fazem-me mal!"

"Eu sabia que era diferente porque eles me diziam que eu era diferente. Sempre fui eu. Era o que era. Durou muitos anos."

"Aquilo para mim era uma guerra", diz, contando pela primeira vez este drama para alertar para aquilo que ainda hoje acontece, apesar de já se terem passado mais de 40 anos.

"O Liceu de Oeiras foi duro para mim. Não conseguia a normatividade dos outros miúdos. Nas horas que tinha furos ia com as minhas amigas e fugia, íamos à praia. Tentei ter uma ou outra namorada apesar de sentir que não havia nenhuma espécie de atracção física. À medida em que o tempo foi decorrendo, senti necessidade de fazer alguma coisa… De poder ter uma vida em paz. Então comecei a mudar a minha atitude e maneira de ser, se não não conseguia viver, ou então tinha de deixar a escola. Punha-me ao espelho, sozinho, a tentar não falar com as mãos, a ter a voz mais grossa, a não me assustar e gritar… Treinava isso. Vê ao que se chega. Era uma forma de me treinar para não ser agredido".

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Fonte: Flash · Crédito foto: Flash